19/09/2008 | Agencia Estado
Setor de filme plástico busca novos mercados
A entrada em operação da nova linha de produção de polipropileno biorientado (BOPP) da Polo Films, que ocorreu em abril deste ano, tornou ainda maior a diferença entre o volume produzido do filme plástico no Brasil e a demanda doméstica. Por isso, as fabricantes do setor, dominado pela Polo e pela líder Vitopel, têm buscado desenvolver novos mercados.
A opção natural, representada pela venda do produto ao exterior, tem como empecilho a valorização do real frente ao dólar - que está em processo de reversão neste momento- e a conseqüente redução na competitividade dos produtos brasileiros exportados. Apesar disso, as companhias ampliam as vendas ao exterior, principalmente para mercados onde o consumo do BOPP já está mais desenvolvido, como o norte-americano e o europeu.
A outra frente de trabalho dos fabricantes brasileiros está relacionada ao desenvolvimento tecnológico do produto e ao convencimento das indústrias de bens de consumo de que o BOPP pode substituir o uso de outros plásticos, como o polietileno (PE), e até mesmo de outros materiais, como o papel ou o vidro, na fabricação de embalagens.
Atualmente, o mercado alimentício responde por cerca de 80% da demanda doméstica por BOPP, com destaque para o uso nas embalagens de biscoitos, salgadinhos e chocolates. Mas, futuramente, esta participação tende a cair, com o avanço do produto em outras áreas, como na indústria de produtos de higiene e limpeza e até mesmo na comercialização de produtos líquidos.
Na análise do diretor comercial da Polo Films, Davide Botton, o excedente de oferta de BOPP no mercado brasileiro cria um ambiente de tranqüilidade de abastecimento que favorece o desenvolvimento de novas embalagens e produtos. Outro ponto favorável à busca por inovação é o avanço tecnológico do BOPP, que hoje possui melhor barreira, o que permite ao produto ser utilizado em mercados que exigem maior período de exposição nas prateleiras.
Diante da perspectiva de ingresso em novos mercados, o setor espera dobrar o consumo per capita anual brasileiro de BOPP. De acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Filmes Biorientados (Abrafilme), José Ricardo Roriz Coelho, o consumo nacional é de aproximadamente 450 gramas anuais por pessoa, volume que deverá chegar a algo próximo de 900 gramas anuais até 2012. Na Argentina, o consumo atual é de 800 gramas por ano e no Japão este número supera 2 quilos por pessoa.
Roriz, que também é presidente da Vitopel, lembra que apesar de o BOPP ser mais caro do que outros materiais, sua competitividade é grande quando considerado o volume embalado. Na prática, é possível embalar um mesmo produto com um uso menor de BOPP do que de outros materiais, devido à baixa espessura e elevada resistência mecânica do filme plástico.
Nos últimos anos, o crescimento deste mercado no Brasil tem oscilado em patamares próximos a 10%. Para 2008, a expectativa é um pouco menos favorável, segundo Botton, da Polo Films. A explicação está no excesso de oferta de crédito no mercado, afirma. Com condições favoráveis à compra de bens duráveis, os consumidores estão com parte da renda comprometida, o que reduziria o consumo de produtos alimentícios de segunda necessidade, grandes consumidores de BOPP.
Mas as previsões para os próximos são favoráveis, destaca Botton. Tanto é que as empresas com atuação no setor intensificam os investimentos. A Polo Films, empresa do Grupo Unigel, concluiu em abril passado o projeto no qual ampliou sua capacidade de produção em quase 50%, para 100 mil toneladas anuais. A Vitopel, por sua vez, anunciou investimentos de US$ 55 milhões para a construção de uma nova fábrica, ainda sem local definido, com capacidade de 35 mil toneladas anuais e início de operação até o início de 2010. E até mesmo a Videolar, que ainda não atua neste mercado, anunciou planos de investir US$ 100 milhões na construção de uma fábrica de BOPP em Manaus (AM), com capacidade anual de 75 mil toneladas.
Estas novas capacidades, aliadas ao aumento da oferta em outros países sul-americanos, como a Argentina, resultará em um aumento temporário no excedente de oferta, o que levará os fabricantes brasileiros a intensificarem as vendas ao mercado externo. No caso da Polo Films, explica Botton, isso já aconteceu: as exportações, que representavam 20% das vendas da companhia, já somam 40% do total negociado com o início da operação da nova linha de produção.
Atualmente, o mercado de BOPP movimenta quase 110 mil toneladas anuais no Brasil. A capacidade de produção de Vitopel e Unigel juntas, no entanto, somam aproximadamente 220 mil toneladas anuais - a Vitopel produz aproximadamente 120 mil toneladas de BOPP no Brasil e outras 30 mil toneladas na Argentina. Devido à demanda restrita no Brasil, o setor exportou 42,8 mil toneladas de BOPP em 2007, segundo dados da Abrafilme.
Por outro lado, o setor também registra forte ritmo das importações, que totalizaram 25,9 mil toneladas no ano passado e levaram as companhias nacionais a operar com elevado nível de ociosidade. Mas este cenário poderá mudar. No final de agosto deste ano a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) abriu um processo de investigação para apurar uma denúncia de prática de dumping nas vendas de BOPP de países como China, Argentina e Estados Unidos para o Brasil.
A denúncia, feita pela Vitopel, terceira maior fabricante de BOPP do mundo, poderá tornar a concorrência no mercado interno mais transparente, permitindo às fabricantes nacionais reconquistar espaço no total das vendas domésticas.
Pressionadas pelo aumento das importações e pelo excesso de oferta, as fabricantes de BOPP reduziram os preços do produto nos últimos meses. Ao mesmo tempo, os custos se mantiveram em elevação e o dólar enfraquecido tornou cada vez menos atrativas as exportações.
Segundo Roriz, que até fevereiro deste ano era co-presidente da Suzano Petroquímica, uma das fornecedoras de polipropileno do mercado nacional e hoje incorporada pela Quattor, o cenário adverso leva as empresas a analisarem oportunidades de aumentar o índice de competitividade de suas unidades produtivas. A própria Vitopel, revela o executivo, já recebeu propostas para instalar uma fábrica na China, mercado deficitário em BOPP. A favor do negócio está o fato de as empresas instaladas no país poderem ser facilmente abastecidas por petroquímicas instaladas no Oriente Médio, cujo custo de produção de polipropileno, a partir do gás, é bastante inferior ao registrado no Brasil.
Como a relação entre o uso do BOPP é do polipropileno (PP) é de praticamente um para um, este segmento, sozinho, responde por mais de 10% da demanda nacional por PP, mercado dominado por Quattor e Braskem. (André Magnabosco)